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Soajo em Notícia

Este blogue pretende ser uma “janela” da Terra para o mundo. Surgiu com a motivação de dar notícias atualizadas de Soajo. Dinamizado por Teresa Araújo, Rosalina Araújo e Armando Brito. Leia-o e divulgue-o.



Segunda-feira, 27.03.17

É preciso responsabilizar para preservar o lobo

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Não há volta a dar. O debate sobre o lobo-ibérico vai sempre “desembocar” na necessidade de fazer coexistir o pastoreio com o maior predador terrestre da região. A conferência que o investigador Francisco Álvares, sob organização do projeto Soajo em Movimento ConVida, dinamizou, no passado dia 26 de março, em Soajo, centrou-se, fatalmente, em torno desta dialética.

Segundo o biólogo do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO), da Universidade do Porto, “tem de haver uma mudança de paradigma se quisermos manter a população do lobo e os efetivos pecuários com condições”. Mas a presença do lobo, em territórios como o “coração” do Parque Nacional, onde os hábitos culturais de coexistência se perderam nas últimas décadas, esbarra contra as atividades humanas.

Noutros tempos, no extremo setentrional da Península Ibérica, o lobo-ibérico tinha como "prato" preferido as presas silvestres (como o veado, o corço e a cabra-montês), mas, devido ao desaparecimento ou rarefação destas, procedeu-se à reorganização do ecossistema no Parque Nacional, e o gado em pastoreio extensivo passou a estar no centro da cadeia alimentar da população lupina.

Entretanto, as presas silvestres estão de regresso ao Parque Nacional. “Mas o problema é que estes ungulados estão a povoar uma paisagem muito mal tratada, toda calcinada, e sem praticamente manchas florestais, pelo que, nas atuais condições, é muito difícil ter populações abundantes de presas silvestres no interior da referida área protegida”, lamenta Francisco Álvares.

Apesar dos constrangimentos, segundo o investigador, “é possível atingir uma medida de sustentabilidade entre a conservação do lobo e as atividades humanas, mas, devido à subsidiodependência, este equilíbrio está complemente esquecido e estamos num sistema quase artificial, que não é sustentável”.

Desde que foi publicada legislação para a proteção do lobo-ibérico pouco ou nada mudou. Os criadores queixam-se “sempre das insuficientes compensações”. Porém, segundo Francisco Álvares, as medidas obrigatórias de proteção do gado também não são cumpridas por muitos produtores. “A vigilância é quase nula e, neste contexto, os ataques do lobo são frequentes e, claro, daí, vem este conflito intenso”, sustentou o investigador, lembrando que “um rebanho [ou manada] de cinquenta cabeças tem de ser guardado por pastor e cão de gado”.

“É preciso responsabilizar e apoiar os criadores de gado para a utilização de medidas de prevenção de ataques, da mesma maneira que nenhum seguro paga os prejuízos de assalto a casa quando o proprietário da habitação é pouco zeloso”, compara.

 

O que revelam os estudos

No Alto Minho, há duas décadas que se estuda uma população de lobos. A investigação do CIBIO mostra que a adaptação do predador carnívoro é extremamente complexa. Nas localidades onde o gado errante apascenta livremente os ataques do lobo são muito frequentes.

As investidas sobre o gado têm explicações racionais. O lobo, “que não é um matador”, é um predador “oportunista” e “inteligente”, razão por que caça as presas abundantes e mais fáceis de intercetar, neste caso os animais domésticos. Porém, o ataque a bovinos representa sempre um “conflito social, económico e emocional”, e a animosidade contra o predador vem por arrasto.

A retaliação dos produtores aos ataques do lobo está “medida” em números. De acordo com o Sistema de Monitorização de Lobos Mortos, entre 1999 e 2011, foram mortos cerca de oitenta lobos. E, segundo dados do CIBIO, sete dos 17 lobos marcados com coleira GPS, para investigação, nos últimos dez anos, foram abatidos por ação humana, a maioria dos quais numa alcateia situada a norte de Paredes de Coura.

O último episódio remonta há cerca de uma semana. Um lobo que estava a ser monitorizado por telemetria foi morto a tiro. “Encontrámos o colar [do lobo que estava a ser seguido] cortado e escondido por baixo de uma pedra num ribeiro”, revela o investigador.

Há muitos lobos a morrer por laço, veneno e tiro (o atropelamento acidental é a principal causa de morte conhecida). Mas a grande maioria dos casos não resulta em processo-crime ou é arquivada pelo Ministério Público. “Em quase três décadas de lei (o lobo é protegido desde 1988), só houve dois casos de punição: um a sul do Douro, o outro numa montaria ao javali em zona de caça no interior do PN”. Neste caso, o culpado pagou uma coima de 300 euros, um “valor ridículo para dissuadir comportamentos destes e criar uma consciência responsável”, diz Francisco Álvares, para quem “o lobo é uma arma de arremesso e um bode expiatório para os produtores por a ruralidade estar a perder-se”.

A nível nacional, estima-se que existam trezentos lobos, distribuídos por sessenta alcateias. No Alto Minho, as alcateias de Soajo e do Vez, em zonas altaneiras, “têm mais tranquilidade e são as mais estáveis, muito à custa do alimento que há, sobretudo animais domésticos”, explica Francisco Álvares.

Com variações de região para região, cerca de 40% da população lupina, em Portugal, é morta anualmente por ação humana.

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Predação do lobo

Arcos de Valdevez é um dos concelhos mais afetados pela ação predatória do lobo sobre animais de pastoreio. Só neste mês de março, pelo menos em Soajo, foram mortos mais dois bovinos por investidas do lobo. O casal de produtores, António e Teresa Cerqueira, com um histórico de prejuízos, já desencadeou o processo burocrático para efeitos de indemnização.

A equipa de averiguação do ICNF teve de analisar as carcaças para confirmar o ataque de lobo (e não de cães assilvestrados ou outra causa de mortalidade), requisito fundamental para validação da queixa dos proprietários.

Entretanto, de acordo com o ICNF, de janeiro de 2015 a janeiro de 2016, foram identificados 1272 ataques e confirmados 1831 animais (entre ovinos, bovinos, caprinos, equinos e caninos) abatidos por ataques do lobo. Mas, em certos anos, o número de ataques que é atribuído ao lobo anda por 2500, sendo que o Estado gasta uma média de 800 mil euros/ano em compensações.

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Três perguntas a Francisco Álvares

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“Paisagem bem conservada é o símbolo que o lobo pode ter”

  1. O que é preciso fazer para reduzir a predação do lobo e esbater o conflito entre as atividades humanas e a presença do lobo?

A resposta não é simples… Desde logo, ações de sensibilização são importantes… Para atingir uma coexistência sustentável, tem de haver compromissos de toda a sociedade e um conjunto de medidas como o ordenamento do pastoreio, a criação de condições para o aumento das presas silvestres e a aposta efetiva na prevenção de incêndios e fomento florestal. Mas nunca é de mais insistir na responsabilização dos proprietários, a quem compete a proteção do gado (confinamento, uso de cão de gado eficiente como o sabujo…) e a implementação de boas práticas, nomeadamente a redução da distância das áreas de pastoreio aos locais de confinamento.

  1. O lobo é um indicador do que é uma paisagem bem ou mal preservada. No atual contexto, em que medida o lobo corre sério risco de extinção?

Se aquilo que as pessoas locais pretendem é uma paisagem cada vez mais queimada, onde a biodiversidade desaparece, o pastoreio de gado é dominante e o número de cabeças [de gado] contrasta com a reduzida área de pasto, então, neste quadro, o lobo não tem lugar.

Mas, numa paisagem bem gerida, em que o gado é bem guardado e os animais silvestres são em bom número, aí, o lobo tem todo o cabimento. O lobo só pode existir numa paisagem em que haja espaço para ele viver e alimento para ele subsistir.

  1. O que é que deveria simbolizar o lobo numa área de proteção, que está longe de o ser?

Todos nós gostamos de chegar a um sítio em que se veja uma paisagem bem conservada. Este é o símbolo que o lobo pode ter. Além disso, o lobo é uma espécie-chave na biodiversidade regional e na identidade da cultura popular.

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por Soajo em Notícia às 18:34



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