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Soajo em Notícia

Este blogue pretende ser uma “janela” da Terra para o mundo. Surgiu com a motivação de dar notícias atualizadas de Soajo. Dinamizado por Teresa Araújo, Rosalina Araújo e Armando Brito. Leia-o e divulgue-o.



Quinta-feira, 05.05.16

Investigadora que fez estudo pioneiro sobre Soajo homenageada em Paris

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A antropóloga Colette Callier-Boisvert, de nacionalidade francesa, autora do livro Soajo, entre Migrações e Memórias. Estudos sobre uma sociedade agro-pastoril de identidade renovada, além de vários artigos anteriores sobre a nossa Terra, foi recentemente homenageada em Paris, num justo tributo que diversos membros daquela área científica lhe prestaram. Na sua rica lista de publicações, destacam-se vários trabalhos etnográficos sobre a origem, a migração e a distribuição dos povos.

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“Colette Cailler-Boisvert trouxe-nos um olhar sobre a residência, a filiação, os direitos de sucessão, o casamento, as relações no seio da família, a partir de Soajo, mas refletindo acerca do contexto português”, diz acerca dela Paula Godinho (antropóloga que leciona Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa), que é profunda conhecedora da investigadora gaulesa.

Mas como é que Soajo surgiu como objeto de investigação? Callier-Boisvert visitou Soajo, pela primeira vez, no início dos anos sessenta do século passado, e aí regressou no final dos anos oitenta, voltando, depois, todos os anos até 1998. Foi esta relação, quase “umbilical”, com a realidade de Soajo, apesar do hiato de 23 anos sem visitas a Soajo, que esteve na base da compilação dos artigos de cariz antropológico, nos quais a autora conta e explica, de maneira fundamentada, relevantes mudanças estruturais que foram acontecendo em Soajo.

De acordo com a vasta literatura existente, o livro Soajo, entre Migrações e Memórias. Estudos sobre uma sociedade agro-pastoril de identidade renovada entrecruza três temas: a emigração, vista como um elemento estrutural e constante, com a qual (quase) todos lidam para atenuar o seu impacto na comunidade; a dialética entre público/privado e individual/coletivo; e os processos identitários, segundo uma lógica de resistência e adaptação em relação a um contexto de mudança. Ou seja, o livro de 317 páginas (publicado em 1999), que compila artigos assentes na longa relação da investigadora com Soajo, faz uma análise antropológica acerca da relação entre tradição e mudança, tendo como âncora a dinâmica social que foi marcando a segunda metade do século passado.

A professora Paula Godinho – na mensagem de tributo a Colette Callier-Boisvert, cujo teor foi gentilmente cedido a este blogue pelo antropólogo arcuense José Pinto – lembra que, nos idos anos sessenta, “Soajo era uma povoação essencialmente feminina, devido à emigração económica e política (pela recusa da guerra colonial), com uma hierarquização social onde se destacavam lavradores, caseiros e jornaleiros. “

Segundo a académica da Universidade Nova, quando Callier-Boisvert voltou ao Alto Minho duas décadas depois, “Soajo estava já exaurido de gente, pelo despovoamento e pela marginalização económica da agricultura tradicional, quando o pão passou a chegar de fora. Em 1993, a população estava reduzida a metade, e envelhecera consideravelmente. Os que tinham mais terras já não eram os mais ricos, pois as remessas de emigrantes e as pensões de reforma que estes usufruíam haviam invertido a situação. A agricultura fora marginalizada, e verificaram-se transformações na natureza e no sentido da entreajuda. Se a motivação económica é uma das chaves para a entender, há que ter também em conta que o trabalho coletivo é mais estimulante, suscita a emulação e a competição, e permite a valorização social das capacidades individuais.”

Entretanto, a entreajuda “manteve-se devido à falta de mão-de-obra e ao envelhecimento, com um ritmo de trabalho mais lento. Juntavam-se algumas jornaleiras, que as proprietárias tentam fidelizar através de um entretecimento afetivo.”

Mas o que mais impressiona quem sobre Soajo se debruçou é “o facto de as mulheres preferirem não trabalhar sós, em silêncio e isolamento, e entristecerem quando não eram solicitadas para integrar uma equipa, sem estarem doentes ou terem qualquer razão em contrário.”

No livro em questão, "o mais importante trabalho de investigação etnográfica e antropológica sobre Soajo”, como a ele se refere José Pinto, a autora Colette Cailler-Boivert, segundo Paula Godinho, "fala-nos da grande satisfação do amor-próprio [da mulher soajeira] por ser chamada para com as outras, numa população agrícola envelhecida, menos resistente à fadiga. Mais, as mulheres intuíam que a atividade agrícola no Soajo iria acabar quando desistissem.”

Para Godinho, “o trabalho da antropóloga [francesa], tão atento ao parentesco e à família, constituiu um guião para estudos posteriores, noutros locais, em outros tempos, trazendo consigo o marco de ter sido pioneiro. A candeia que vai à frente, e que ilumina duas vezes – num tempo em que a eletricidade era estranha a Soajo.”

 

Nota biográfica*

Formada em Línguas e Civilizações Ibero-americanas, Colette Callier-Boisvert especializou-se em Etnologia no Museu do Homem de Paris e doutorou-se nessa mesma disciplina na Sorbonne.

Realizou, alternadamente, numerosas pesquisas sobre as sociedades rurais no Brasil e em Portugal, na região do Minho. 

Os principais temas abordados, nas suas investigações, são as migrações, os problemas de aculturação nos meios urbanos, as transformações sociais, a evolução da família num contexto de mutações geográficas, económicas e sociais, assim como as implicações da construção da identidade à escala local. Os seus estudos têm sido publicados em França, Portugal e Brasil.

* Nota fornecida por José Pinto

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por Soajo em Notícia às 18:41


1 comentário

De Anónimo a 06.05.2016 às 18:51

Conheci pessoalmente madame Colete , ficava em casa. Do tio Antonio Enes , de Bairros , esteve várias vezes em minha casa , e tenho o livro dela , desde que faleceu o marido que não voltou a Soajo , parabéns , Sra Colete , Manuel Barreira da Costa . 6/05/2016

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